O homem começou a perceber o “caminhar” do tempo, que acontece em uma única
direção e flui sem interrupção (conceitos de unidirecionalidade e continuidade do tempo
clássico), por meio da observação de fenômenos naturais. São exemplos: o germinar e
crescimento de uma planta, o desabrochar de uma flor, o crescimento de um animal
doméstico, o envelhecimento de uma pessoa, o deslocamento do Sol no céu durante um
dia, a mudança do aspecto da Lua ao longo de um mês, a mudança cíclica das estações
do ano e, até mesmo, a alteração do aspecto do céu noturno ao longo de um ano.
As primeiras organizações sociais humanas precisavam medir a passagem do tempo em
inúmeras atividades práticas, tais como: saber a época certa para plantar uma
determinada cultura, antecipar as estações de cheia e vazante de um rio e conhecer as
1-12
datas das celebrações religiosas. Por incrível que pareça, a primeira marcação de tempo
ocorreu para períodos longos (meses e anos) e não para intervalos curtos (dias e horas).
Os povos antigos necessitavam também conhecer o espaço geográfico local, com a
finalidade de se deslocarem quando necessário (sempre com um rumo definido). Além
do mais, quando a pesca, a caça e o comércio envolviam grandes distâncias, a
necessidade de conhecer o caminho de ida-e-volta era óbvia.
O QUE SÃO CONSTELAÇÕES?
Constelação é uma região da esfera celeste onde existe uma certa configuração
projetada de estrelas. Os antigos astrônomos costumavam associar figuras de objetos,
heróis ou deuses a tais configurações de estrelas. Muitas sociedades herdaram
as constelações de outras enquanto que algumas conceberam suas próprias
constelações como aquelas do grupo indígena tupi-guarani. O termo constelação vem do
vocábulo latino constellatio, que significa reunião de astros, muito embora as estrelas de
uma constelação não estejam fisicamente reunidas pela gravitação em função das
enormes distâncias que as separam. As 48 constelações clássicas foram compiladas pelo
grego Ptolomeu em 137 d.C., inclusive as zodiacais. Parte das constelações clássicas
simboliza estórias e mitologias herdadas dos povos antigos da Mesopotâmia e Egito.
Em 1929, a União Astronômica Internacional estabeleceu uma cartografia completa da
esfera celeste contendo 88 constelações no total. As 40 outras, acrescentadas na era
moderna, foram definidas principalmente na época das grandes navegações oceânicas.
Elas simbolizam essencialmente animais pertencentes às novas terras “descobertas”
pelos europeus, e objetos usados na navegação da época. A maioria das constelações
“recentes” situa-se no hemisfério sul do céu.
O QUE É NAVEGAÇÃO CELESTE?
Um dos tipos mais antigos de orientação no espaço e no tempo, utilizados pelo homem
para se movimentar pela superfície terrestre, é a navegação por meio da posição das
estrelas no céu. A navegação celeste é mais comumente aplicada para navegações
marítimas. A partir da observação da posição de determinadas estrelas com relação ao
Meridiano Celeste Local e ao Horizonte, pode-se calcular a posição geográfica correta
de um lugar.
ANO SOLAR E LUNAÇÃO
A observação sistemática do deslocamento do Sol no céu permitiu ao homem perceber
dois fatos notáveis: (i) tanto o nascer do Sol como o pôr do Sol não ocorrem diariamente
nos mesmos pontos do Círculo do Horizonte, (ii) a duração desse deslocamento é
diferente dia após dia. O mais incrível foi notar que esses fatos ocorrem de forma
cíclica, cujo período é denominado de ano solar ou trópico. O ano solar tem 365,2422
dias (365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46,08 segundos).
A observação persistente da mudança do aspecto da Lua fez notar que o intervalo de
tempo entre duas fases iguais e consecutivas corresponde a 29,53059 dias. Esse período
lunar é denominado de lunação (ou período sinódico da Lua). O conceito de mês surgiu
desse fato astronômico. Muitas sociedades antigas utilizaram e algumas ainda adotam o
ano lunar, que possui 12 meses lunares, ou seja, 354,36708 dias (354 dias, 8 h, 48 min e
35,71 s). Os povos árabes do oriente médio usam um calendário baseado no mês lunar.
Já os judeus utilizam um calendário lunissolar. O mundo ocidental contemporâneo usa
um calendário solar que sofreu influência do calendário lunar, isto é, adotamos um ano
com 12 meses, originários das 12 lunações.
HISTÓRIA DOS CALENDÁRIOS OCIDENTAIS
Os primeiros calendários da Roma Antiga (750 a.C. - 476 d.C.) eram caracterizados a
bel prazer pelos próprios imperadores vigentes, baseados inclusive em superstições. O
calendário do imperador Rômulo (753-717 a.C.) apresentava 304 dias com 10 meses de
duração variável e o calendário de Numa Pompilo (717-673 a.C.) possuía 355 dias
divididos basicamente em 12 ou 13 meses (de 29 ou 31 dias). O calendário de Pompilo
aplicava uma correção ao ano solar de modo mais satisfatório do que o de Rômulo,
porém era ainda muito complicado. Os nomes dos meses adotados por nós são
originários desses calendários romanos. O imperador Júlio César (100-44 a.C.) decidiu
adotar um calendário solar com 365 dias dispostos em 12 meses, de modo que a cada
quatro anos o ano teria 366 dias. O primeiro mês do calendário juliano passou a ser
Januarius e o dia excedente era acrescentado ao mês Februarius dando origem ao nosso
ano bissexto. Por curiosidade, o nome do sétimo mês do nosso calendário, Julho, vem
de uma homenagem a esse imperador romano após sua morte. A palavra calendário
1-14
provém da nomenclatura latina usada pelos antigos romanos para a designação da
primeira parte de um mês: kalendae. As outras duas partes de um mês eram
denominadas de nonas e idus.
Apesar de todos os ajustes efetuados na Roma Antiga, o ano juliano tinha em média
365,25 dias (ou 365 dias e 6 horas), sendo ligeiramente diferente do ano solar. A
correção referente aos anos bissextos a cada quatro anos não foi suficiente. Ao longo de
muitos anos, a diferença tornava-se cada vez maior, acrescentando um dia extra a cada
intervalo de 128 anos, aproximadamente. Somente em 1582, o papa Gregório XIII
(1512-1586) estabeleceu uma reforma crucial ao calendário ocidental. Assim foi a
reforma gregoriana: (i) suprimiu 10 dias acumulados, para que o início de cada estação
ocorresse na época certa; (ii) eliminou a ocorrência de anos bissextos durante três anos
seculares para cada período de 400 anos, de modo que o ano 1600 foi bissexto, os anos
1700, 1800 e 1900 não o foram, 2000 foi bissexto, 2100 não o será e assim
sucessivamente (somente os anos seculares divisíveis por 400 são bissextos); (iii) a
contagem dos dias do mês passou a ser caracterizada por números cardinais (1, 2, 3, ...,
31) e não mais pela ordenação de kalendae, nonas e idus.
No entanto, ainda assim, resta uma diferença residual entre o ano solar e o ano
gregoriano, que causa o acréscimo de um dia para cada período de 3.333,3333... anos.
Desta maneira, o ano 4000 não deverá ser bissexto.
Alguém poderia propor mais uma reforma ao nosso calendário, fazendo um ano
composto por 13 meses de 28 dias, porém isto é bem improvável.
CALENDÁRIO VIGENTE
Um modo de entender o calendário ocidental atual (gregoriano modificado) é expressar
a duração do ano solar por uma soma de dias inteiros e fracionários.
365,2422 dias # 365 + 1/4 – 1/100 + 1/400 – 1/3.300 dias
O termo à esquerda da quase-igualdade representa a duração do ano solar. O lado direito
é composto por cinco termos:
(a) o primeiro é a duração do ano padrão;
1-15
(b) a adição da fração 1/4 corresponde à soma de um dia a cada quatro anos (os anos
bissextos, que ocorrem em anos divisíveis por 4);
(c) a subtração de 1/100 mostra a necessidade de não incluir um dia a cada 100 anos;
(d) a adição de 1/400 indica a necessidade da ocorrência de um ano bissexto a cada 400
anos;
(e) a última fração à direita diz que se deve suprimir a inclusão de um dia a cada 3.300
anos, aproximadamente.
De acordo com os itens (c) e (d), o ano 2000 foi bissexto, mas os anos 2100, 2200 e
2300 não o serão.
ORIGEM DA SEMANA
O vocábulo semana provém do latim septmana, que significa sete manhãs (usado na
Roma Antiga). O conceito de semana de 7 dias originou-se da duração de cada período
lunar marcante ou do culto diário aos sete astros errantes pelos babilônios. O domingo
era dedicado ao Sol, segunda-feira à Lua, terça a Marte, quarta a Mercúrio, quinta a
Júpiter, sexta a Vênus e sábado a Saturno. As nomeações dos dias da semana em várias
línguas modernas (ex. espanhol, francês, inglês e alemão) originaram-se dos nomes em
latim desses astros (Solis, Lunae, Martis, Mercurie, Jovis, Veneris e Saturni
respectivamente). A língua portuguesa não seguiu essa denominação para os dias da
semana porque sofreu influência do cristianismo. As comemorações da Páscoa Cristã
originalmente duravam uma semana de orações. Os dias da Páscoa eram denominados
feriaes em latim, significando feriados. O domingo era nomeado por feria-prima, a
segunda-feira era feria-segunda e assim por diante. O sábado vem do vocábulo latino
Shabbath, que correspondia ao dia de descanso dos hebreus. A denominação domingo
usada pelos povos latinos origina-se da substituição de feria-prima (ou dies Solis) por
dominica imposta pelo imperador Flávio Constantino (Roma antiga, 280-337 d.C.), a
qual significa dia do Senhor, quando da sua conversão ao cristianismo.
DÉCADA, SÉCULO E MILÊNIO
Quando se deu o início da contagem dos anos no calendário ocidental atual e quando
ocorre a mudança de década, século e milênio?
O calendário juliano adota a época da fundação de Roma (753 a.C.) para o início da
contagem, e o calendário gregoriano, que é essencialmente cristão, considera o
nascimento de Jesus Cristo. Contudo, parece que Cristo nasceu no ano 4 a.C. e não no
ano 1 d.C. como se pensa. Além do mais, não existiu o ano 0 (zero), de modo que o
primeiro período de 10 anos (uma década) começou no ano 1 terminando no ano 10,
assim como o primeiro século que terminou no ano 100 e o primeiro milênio, que
findou no ano 1000. Consequentemente, o século XXI e o 3° milênio começaram em
2001, e não em 2000, como muita gente pôde imaginar.
DIAS E NOITES
Muitas civilizações antigas elaboraram explicações míticas para o movimento do Sol no
céu durante o dia, assim como seu reaparecimento após a escuridão da noite. Como
exemplos, os antigos babilônios pensavam no deslocamento noturno do Sol por debaixo
do solo que era a morada dos mortos e os antigos egípcios (3200 a.C.) imaginavam o
transporte do Sol no céu (corpo da deusa Nut) por um barco que durante a noite
percorria um rio subterrâneo. Na Grécia clássica (600 a.C.), muitos afirmavam que a
Terra era imóvel de modo que o Sol, deus Helius, percorria o céu numa grande
carruagem.
DIA SOLAR E DIA SIDERAL
No transcorrer de um dia, atualmente dividido em 24 horas, nossos ancestrais faziam
poucas divisões: manhã, meio do dia, tarde, início da noite, meio da noite e fim da noite.
A observação do deslocamento do Sol era adotada na parte clara do dia. O
deslocamento das estrelas mais brilhantes era aplicado para a subdivisão da noite.
A primeira definição de dia veio da observação do Sol, que corresponde ao Dia Solar.
Além do mais, por questões práticas, o homem sentiu a necessidade de criar uma ordenação matemática para o dia/noite, visto que nós possuímos um relógio biológico
interno, completamente adaptado ao ciclo diário do Sol. O Dia Solar corresponde ao
intervalo de tempo entre duas passagens consecutivas do Sol pelo Meridiano Celeste do
lugar, uma linha imaginária no céu que une os Pontos Cardeais Norte e Sul passando
pelo Zênite (ponto imaginário no céu diametralmente oposto ao centro da Terra). O Dia
Solar é dividido por definição em 24 horas solares.
Uma outra referência astronômica para definir o dia é representada pelas estrelas. É o
dia sideral. Corresponde ao intervalo de tempo entre duas passagens sucessivas de uma
determinada estrela pelo Meridiano Celeste Local. Por convenção, o dia sideral é
dividido em 24 horas siderais.
O Dia Solar e o dia sideral são diferentes pela simples razão de que a Terra não é imóvel
e sim translada ao redor do Sol. Qual é o mais curto? Pensemos juntos: enquanto a Terra
gira em torno do seu eixo ela continua o seu deslocamento ao redor do Sol no mesmo
sentido e para que o Sol volte a assumir a mesma posição no céu depois de uma rotação
completa da Terra, serão gastos alguns minutos a mais. Portanto, o Dia Solar é mais
longo do que o sideral por apenas 3 minutos e 56 segundos em média.
1 Dia Solar = 24 horas (solares)
1 dia sideral # 23 horas, 56 minutos e 4 segundos (solares)
Outra pergunta: Qual é, então, o tempo gasto pela Terra para dar um giro completo em
torno de si mesma? O referencial mais adequado para se medir a rotação da Terra é
dado pelas estrelas distantes e não pelo Sol. Devido às próprias distâncias das estrelas,
que estão muito mais longe do que o Sol, suas posições no céu são praticamente
constantes. Portanto, emprega-se o período sideral.
A noite é a parte do dia, de 24 h, quando o Sol está abaixo do plano do Horizonte. Há
várias definições de noite. A noite civil começa (e termina) quando o centro do disco
solar situa-se a 6 graus abaixo do Horizonte e a noite astronômica, quando o Sol está a
18 graus. Os Dias Civil e Astronômico são os complementos respectivos dessas
definições de noite. Durante a noite astronômica, o céu não sofre alteração em brilho
1-18
enquanto que no início e fim da noite civil há ainda claridade crepuscular. Entretanto,
por todo este capítulo, definimos “dia claro” como sendo a parte do dia em que o Sol
está acima do Horizonte e noite como seu complemento.
MEIO-DIA SOLAR E GNÔMON ASTRONÔMICO
Quando o Sol cruza o Meridiano Celeste Local, estamos na metade tanto do “dia claro”
como do dia civil e do dia astronômico, o meio Dia Solar. Diz-se que o Sol culminou,
de modo que ele atinge sua altura máxima no céu, projetando a menor sombra de
qualquer objeto. Se esse objeto for uma haste perpendicular a uma superfície horizontal
plana (um gnômon astronômico), sua sombra mínima diária fica sempre alinhada
paralelamente à direção norte-sul. O gnômon é o mais antigo instrumento de observação
astronômica.
TEMPO ASTRONÔMICO E TEMPO ATÔMICO INTERNACIONAL
Até meados da década de 50, a unidade básica de tempo, o segundo, era definida pela
Astronomia. Um segundo de tempo correspondia a cada uma das 86.400 partes do Dia
Solar médio (1 segundo { 1/86.400 de 24 horas solares médias). A partir de então, o
segundo passou a ser definido como sendo o intervalo de tempo gasto por
9.192.631.770 ciclos de uma transição eletrônica hiperfina do átomo de Césio 133. Essa
é a definição do segundo internacional, ou melhor, tempo atômico. Contudo, o padrão
de tempo usado por nós é o tempo universal coordenado, que corresponde ao tempo
atômico corrigido na origem, toda vez que a diferença com relação ao tempo
astronômico ultrapassa um certo valor.
ESFERICIDADE E MOBILIDADE DA TERRA
A idéia de imobilidade da Terra perdurou por muito tempo, até por volta do
Renascimento Europeu, com a primeira revolução científica liderada por Nicolau
Copérnico (1473-1543), Galileu Galilei (1564-1642) e Isaac Newton (1642-1727). O
conceito de esfericidade para o nosso planeta não era totalmente aceito nessa época,
embora Aristóteles (600 a.C.) já o tivesse proposto, ao observar eclipses da Lua (a
1-19
sombra da Terra era sempre circular quando projetada na Lua), e Eratóstenes (240 a.C.)
já tivesse calculado o raio terrestre. Com as grandes viagens de circunavegação, todos
tiveram que aceitar tais idéias.
Eratóstenes notou que o Sol não ficava a uma mesma altura no céu, simultaneamente
em duas cidades do Egito Antigo (Alexandria e Siena, atual Assuan), situadas
aproximadamente no mesmo meridiano terrestre. Ele observou que ao meio dia de um
Solstício de Verão, enquanto o Sol iluminava o fundo de um poço d’água em Siena, um
gnômon projetava uma pequena sombra em Alexandria, como é mostrado na Figura 1.1.
Bastaria, então, conhecer a distância entre as duas cidades e o ângulo de separação entre
elas em relação ao centro da Terra. Este ângulo corresponde àquele formado pelo
gnômon e o raio de luz vindo do Sol, cujo vértice é a própria extremidade superior do
gnômon. Admitindo-se uma distância de 5.000 stadias (unidade de comprimento da
época; 1 stadia # 185 m), a estimativa de Eratóstenes para o diâmetro polar da Terra foi
de 14.722 km, próximo do valor real de 12.718 km.
FIGURA 1.1 - MEDIÇÃO DO RAIO TERRESTRE POR ERATÓSTENES (240 A.C.). O
PONTO A DESIGNA ALEXANDRIA, S, SIENA ONDE UM POÇO É ESQUEMATIZADO E C,
O CENTRO DA TERRA. O RAIO POLAR DA TERRA É DESIGNADO POR R.
É fácil compreender a idéia de imobilidade da Terra, seja ela esférica ou não. Do ponto
vista de uma pessoa sobre qualquer ponto da superfície terrestre exceto os pólos,
observa-se que tanto o Sol como a maioria dos outros astros surgem no Horizonte leste,
elevam-se no céu e vão se esconder na parte oeste. Parece, então, que todo o céu está
girando em torno de nós. Além do mais, quando jogamos qualquer objeto verticalmente
para cima, ele sempre cai em queda livre no mesmo lugar de onde saiu (se não estiver
ventando no momento); dando a impressão de que a Terra como um todo não se move
como era concebido pela Física Aristotélica admitida até a revolução científica do
Renascimento Europeu. Contudo, segundo a Física Newtoniana, o mesmo pode-se
afirmar quando repetimos essa experiência dentro de um veículo em movimento
retilíneo e uniforme, que em primeira aproximação pode representar o efeito do
movimento de rotação da Terra num dado ponto de sua superfície. Foi notório o debate
científico entre as idéias revolucionárias de Galileu e o paradigma científico daquela
época, transformado em dogma pela Igreja Cristã. As leis de movimento elaboradas por
Newton sustentaram a aceitação das idéias de Galileu: a Terra não está imóvel no centro
do Universo, mas sim, gira em torno de si mesma e translada ao redor do Sol (leia a
seção A EVOLUÇÃO DO CONHECIMENTO SOBRE O SISTEMA SOLAR do capítulo O SISTEMA
SOLAR, para mais detalhes).
A rotação da Terra foi comprovada por medição direta não astronômica, em 1851,
através do experimento do pêndulo de Léon Foucault (físico francês). Ele verificou que
ao abandonar um pêndulo à ação da gravidade, o plano de oscilação do mesmo gira em
torno da vertical do lugar.
ESFERA CELESTE E ROTAÇÃO DA TERRA
Qualquer pessoa ao observar o céu de um local descampado percebe que está no centro
de um grande hemisfério celeste. Esse tipo de visualização do céu contribuiu para a
concepção do geocentrismo. O céu na Astronomia é idealizado como uma grande
esfera, a esfera ou abóbada celeste, que está centrada na Terra (visão geocêntrica).
O movimento dos astros no céu, ao longo de um dia ou uma noite, ocorre de leste para
oeste. Dizemos que é um movimento aparente, porque não são os astros que se movem,
mas sim a Terra que gira de oeste para leste.
A trajetória de um determinado astro durante seu movimento diário aparente ocorre
paralelamente ao Equador Celeste, como visto na Figura 1.2. Esse círculo imaginário,
que divide o céu em duas metades, nada mais é que uma projeção do Equador Terrestre
na abóbada celeste.
A rotação da Terra define um eixo cujas interseções com a superfície terrestre são os
pólos geográficos Norte e Sul (pontos imaginários). Os círculos que unem os pólos ao
longo de sua superfície (hipoteticamente esférica) e são concêntricos a Terra são os
Meridianos Terrestres. Um plano perpendicular ao eixo de rotação, e eqüidistante de
ambos os pólos, divide o globo em dois hemisférios, Norte e Sul. A interseção deste
plano com a superfície da Terra define o Equador Terrestre. Os paralelos terrestres são
os círculos imaginários paralelos ao Equador.
FIGURA 1.2 - A ESFERA CELESTE: UMA VISÃO GEOCÊNTRICA DO UNIVERSO.
Não “sentimos” a rotação da Terra porque a força centrífuga associada a ela é somente
3% da força de gravidade. Se a Terra passasse a girar cada vez mais rápido,
chegaríamos ao ponto de ter gravidade zero, ou mesmo de sermos jogados para fora da
superfície (de modo análogo a um carrossel). Contudo, a velocidade de rotação não é
desprezível. No Equador Terrestre, a velocidade linear de rotação fica por volta de
1.670 km/h. Sobre o Trópico de Capricórnio (latitude aproximada de São José dos
Campos), a velocidade de rotação é cerca de 1.500 km/h.
Da mesma forma que na Terra, existem na esfera celeste os pólos Norte e Sul, definidos
como sendo as interseções imaginárias do eixo de rotação terrestre com o céu.
COORDENADAS GEOGRÁFICAS
Para localizar uma cidade na Terra, precisamos de duas coordenadas: latitude e
longitude. A latitude de um ponto qualquer sobre a superfície da Terra é o ângulo
contado a partir do Equador até esse ponto, ao longo do Meridiano do lugar. A latitude
vai de –90° (no Pólo Sul), 0° (no Equador) até +90° (no Pólo Norte), por convenção. A
longitude é o ângulo medido sobre o Equador a partir de um meridiano de referência até
o Meridiano do lugar. O meridiano de referência do Sistema de Coordenadas
Geográficas é aquele que passa pelo Observatório de Greenwich (Inglaterra). A
longitude é medida em graus (°) ou em horas (h), indo de 0° no Meridiano de
Greenwich até +180° (ou +12 h) quando contamos para leste a partir de Greenwich, e
até -180° (ou –12 h) quando contamos para oeste (é comum nomear como longitude
leste ou oeste).
COORDENADAS CELESTES EQUATORIAIS
As coordenadas celestes equatoriais são definidas de maneira análoga às geográficas, sendo
aplicadas à localização dos astros no céu. Precisamos, novamente, de duas coordenadas:
declinação e ascensão reta. A declinação é contada a partir do Equador Celeste, usando-se a
mesma convenção: de 0° a +90° para norte e 0° a -90° para sul. A ascensão reta é contada sobre
o Equador Celeste desde o Ponto Gama ou Vernal até o meridiano do astro no sentido de oeste
para leste (o mesmo da rotação da Terra), variando de 0 a 24 h. O Ponto Gama é uma das
interseções da Eclíptica (trajetória anual do Sol no céu) com o Equador Celeste, marcando a
passagem do Sol do hemisfério celeste sul para norte (início da Primavera Boreal).
REGRA DA MÃO DIREITA E SENTIDO DA ROTAÇÃO TERRESTRE
Com a finalidade de visualizar o movimento de rotação da Terra no espaço, basta
aplicarmos a regra da mão direita. Dispõe-se a mão direita com o dedo polegar para
cima, o qual representaria o Pólo Norte. O sentido da rotação terrestre é o mesmo
daquele usado para o fechamento da mão. (veja a Figura 1.2).
HORA SOLAR E FUSOS HORÁRIOS
O Sol culmina no céu sempre ao meio-Dia Solar. Porém, isto ocorre em tempos
diferentes para cada meridiano terrestre, conforme a Terra vai girando em torno de si
mesma. Enquanto em um determinado lugar o Sol está culminando, em outros o Sol já
culminou ou ainda vai culminar. Do mesmo modo, enquanto em alguns lugares o Sol
está surgindo no Horizonte, em outros o Sol está se pondo. Portanto, a hora solar é local
e é fornecida diretamente por um relógio solar.
Além disso, o Sol não se desloca com a mesma velocidade ao longo de sua trajetória
anual aparente (ao redor da Terra). Para corrigir esse efeito, criou-se a hora solar média,
a partir do movimento uniforme de um Sol fictício. A diferença entre a hora solar média
e a hora solar verdadeira é definida como sendo a Equação do Tempo, e pode resultar
em até 15 (quinze) minutos a mais ou a menos. A equação do tempo decorre do fato de
que a velocidade da Terra em torno do Sol não é constante (translação numa órbita
elíptica).
Um fuso horário corresponde a uma faixa de longitude terrestre com 15q (ou 1 h) de
largura, na qual se adota a hora solar média do seu meridiano central como sendo sua
única hora: a hora civil ou legal. O meridiano de origem (longitude = 0 h) dos fusos
horários é aquele que passa pelo Observatório de Greenwich, adotado por questões
históricas. A Figura 1.3 mostra os fusos horários adotados no mundo. O Brasil possui
quatro fusos horários: o fuso de -2 horas para Fernando de Noronha e Ilhas Oceânicas,
-3 horas para Brasília e a maioria dos estados, -4 horas para os estados de RO, RR, MS,
MT, parte oeste do Pará e a parte leste do Amazonas e -5 horas para o Acre e o extremo
oeste do Amazonas. O horário de Brasília está em atraso com relação aos europeus, e
adiantado em relação aos dos EUA.
FIGURA 1.3 - FUSOS HORÁRIOS DA TERRA.
O QUE É HORÁRIO DE VERÃO?
O horário de Verão é simplesmente a hora civil acrescida de uma ou mais unidades,
com a finalidade de se aproveitar a claridade do começo e fim do dia civil,
economizando assim energia elétrica. O início e o término do horário de Verão estão
condicionados à data do Solstício de Verão (em torno de 22/12 para o hemisfério sul),
quando a duração do “dia claro” é máxima. Na prática, o meio do período do horário de
Verão deve se situar próximo a essa data.
ASPECTOS DO CÉU EM DIFERENTES LATITUDES
Quando nos deslocamos em latitude na Terra, podemos perceber que o aspecto do céu
noturno vai mudando ligeiramente. Certas estrelas e constelações deixam de ser vistas e
outras passam a ser avistadas por nós. O Sol também começa a mudar de trajetória
diurna, fazendo com que a duração do dia civil aumente ou diminua.
1-25
Para uma pessoa que está exatamente sobre o Equador da Terra (latitude 0q e longitude
qualquer), ambos os hemisférios do céu podem ser observados por completo. Nesse
caso singular, o plano do Equador Celeste está disposto perpendicularmente ao plano do
Horizonte, e é representado pelo círculo que cruza o Zênite e une os Pontos Cardeais
Leste e Oeste (Figura 1.4). No Equador Terrestre, as trajetórias diárias dos astros
ocorrem em planos perpendiculares ao plano do Horizonte, de modo que, diariamente,
todos os astros ficam metade do tempo acima do Horizonte e metade do tempo abaixo,
como pode ser visualizado na Figura 1.4. Consequentemente, os “dias claros” e as
noites tem a mesma duração de 12 horas, em média, ao longo de todo o ano. Os Dias
Civis duram, em média, 12 h e 48 min (noites civis de 11 h e 12 min) e os Dias
Astronômicos, 14 h e 24 min (noites astronômicas de 9 h e 36 min).

FIGURA 1.4 - VISÃO TOPOCÊNTRICA DA ESFERA CELESTE A PARTIR DO EQUADOR.
Se alguém se situar exatamente em um dos pólos de rotação da Terra (latitude +90q ou -
90q e longitude indeterminada), a visão do céu será completamente diferente da
anterior. Nessa situação extrema, o círculo do Equador Celeste coincide com o do
Horizonte e o pólo celeste respectivo com o Zênite (Z). As trajetórias dos astros no céu
ocorrem de modo paralelo ao plano do Horizonte, como é visualizado na Figura 1.5.
Somente um hemisfério celeste é observado. Se estivermos no Pólo Sul, avistaremos
somente a metade sul do céu como é o caso da mesma figura. Os astros situados nesse
hemisfério celeste nunca se “escondem” abaixo do plano do Horizonte. Há noites de 24
horas (quando o Sol estiver abaixo do Horizonte) e vice-versa no caso dos “dias claros”,
quando ocorre o chamado sol da meia-noite. Os Dias Civis são de 24 h durante toda a
Primavera local, todo o Verão, início do Outono e fim do Inverno, de modo que as
noites civis de 24 h ocorrerão no restante do ano. Os Dias Astronômicos abrangem
períodos maiores do início do Outono local e fim do Inverno, além de toda a Primavera
e Verão.

FIGURA 1.5 - VISÃO TOPOCÊNTRICA DA ESFERA CELESTE A PARTIR DO PÓLO SUL.
No caso intermediário (Figura 1.6), se estivermos fora do Equador ou de um dos pólos
terrestres (como é o caso de São José dos Campos), perceberemos que as trajetórias
aparentes diárias dos astros ocorrem em planos oblíquos ao plano do Horizonte. O plano
do Equador Celeste apresentar-se-á também com a mesma obliqüidade relativa ao
Horizonte. O pólo celeste, correspondente ao hemisfério onde a pessoa se situa, fica
elevado no céu, e o outro, abaixo do Horizonte. Os astros ficam uma parte do dia
visíveis acima do plano do Horizonte e a outra parte abaixo do mesmo, em períodos
desiguais. Certos astros próximos do pólo celeste elevado ficam sempre acima do
Horizonte (aparentemente girando em torno desse pólo) e uma parte do céu próxima ao
outro pólo celeste nunca é visível.
FIGURA 1.6 - VISÃO TOPOCÊNTRICA DA ESFERA CELESTE A PARTIR DE UM LOCAL
ENTRE O EQUADOR E O PÓLO SUL.
O QUE É ZÊNITE?
O Zênite nada mais é que o ponto imaginário no céu exatamente acima de nossa cabeça.
Quando falamos que o Sol ou qualquer astro está a pino, ele está cruzando o Zênite do
lugar. Para determinarmos a direção do Zênite, basta estendermos o fio de prumo (usado
em construção civil), imaginando que o prolongamento desse fio interceptará a esfera
celeste no Zênite. O gnômon astronômico aponta simultaneamente para o Zênite e para
o centro da Terra.
ESTAÇÕES DO ANO
MOVIMENTO ANUAL DO SOL E ECLÍPTICA
Os primeiros astrônomos começaram a perceber que o Sol se movia lentamente contra o
fundo do céu, definido pelas estrelas e constelações. Faziam isso observando as
constelações que são vistas, na direção do poente, logo após o pôr do Sol (antes de se
“porem”) e aquelas que são ofuscadas pelo brilho solar um pouco antes do nascer do Sol
na direção do nascente. Notaram que, gradualmente, as constelações situadas a leste do
Sol deixam de ser vistas devido ao ofuscamento pela claridade solar e que as
constelações a oeste do Sol passam a ser visualizadas. Como as estrelas eram
consideradas fixas na esfera celeste (o que só é válido em primeira aproximação), eles
concluíram que era o Sol que se movimentava. Esse movimento, denominado
movimento anual aparente do Sol, faz com que este se desloque cerca de 1 grau por dia
(de oeste para leste). Daí a origem do círculo geométrico de 360q (provavelmente no
Egito Antigo).
O movimento anual do Sol define no céu uma trajetória circular, a qual foi denominada
Eclíptica, porque é onde a Lua se situa na ocasião de um eclipse. O
plano dessa trajetória circular anual do Sol é inclinado em relação ao plano do Equador
Celeste, em cerca de 23q,5. O plano da Eclíptica define o plano da
órbita da Terra em torno do Sol. O círculo da Eclíptica é, simplesmente, a projeção de
seu respectivo plano na esfera celeste. Ao longo da direção da Eclíptica no céu foram
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concebidas, pelos povos antigos da Mesopotâmia, as constelações do Zodíaco,
associadas a lendas e mitos desses povos (leia também ANO SOLAR E LUNAÇÃO, na seção
PERCEPÇÃO E CONTAGEM DO TEMPO).
SOLSTÍCIOS E EQUINÓCIOS
O movimento anual aparente do Sol na esfera celeste pode ser entendido através da
translação da Terra em torno do Sol (visão heliocêntrica em conjunto com a visão
geocêntrica), ou da observação do pôr do Sol (visão topocêntrica).
A Figura 1.7 mostra a Terra em quatro ocasiões especiais de sua órbita ao redor do Sol.
São os dias em que ocorrem os Solstícios e Equinócios. Tomemos como referência o
hemisfério sul da Terra. Na posição 1, fixando nossa visão a partir da Terra, o Sol está
na distância angular máxima ao norte do plano do Equador Celeste, parecendo parar na
esfera celeste para depois retroceder, para o sul, em seu movimento anual aparente. Os
raios solares, nessa época do ano, incidem mais obliquamente sobre a superfície do
hemisfério sul da Terra, de forma que a incidência de calor é menor. Esse dia é
denominado Solstício do Inverno Austral (Solstício significa Sol parado; em latim:
solstitium), o qual ocorre por volta de 22 de junho. A noite do Solstício do Inverno
Austral é a mais longa do ano. A partir do Solstício de Inverno, tanto os “dias claros”
como os Dias Civis e Astronômicos voltam a aumentar de duração, lentamente. De modo análogo, na posição 3 da Figura 1.7, quando ocorre o “dia claro” mais longo
do ano para o hemisfério sul, o Sol atinge a posição angular mais ao sul do Equador
Celeste. É o dia do Solstício do Verão Austral, que ocorre por volta de 21 de dezembro.
No Verão, a incidência dos raios solares acontece de forma menos oblíqua à superfície.
Em lugares próximos ao Trópico de Capricórnio, a incidência é quase perpendicular.
Portanto, a insolação é maior. Após o Solstício de Verão, os “dias claros” se tornam
cada vez mais curtos novamente.
Em duas ocasiões especiais intermediárias (posições 2 e 4 da Figura 1.7), o “dia claro” e
a noite têm a mesma duração (isso ocorre para todo o globo terrestre). São os dias dos
Equinócios de Primavera e Outono, que ocorrem, respectivamente, em torno de 22 de
setembro e 21 de março no hemisfério sul. A palavra Equinócio, de origem latina,
significa noites de iguais duração. Os Equinócios ocorrem quando o Sol está sobre o
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círculo do Equador Celeste, deslocando-se do hemisfério celeste norte para o sul, no
caso do Equinócio da Primavera Austral, e fazendo o caminho inverso, no Equinócio do
Outono Austral. Nesses dias, ambos os hemisférios terrestres recebem a mesma
quantidade de insolação. Entre o início do Outono Austral e o fim do Inverno, os “dias
claros” são mais curtos do que as noites (a noite mais longa ocorre no início do
Inverno), e entre o início da Primavera e o fim do Verão, a situação se inverte (o dia
mais longo ocorre no início do Verão).
FIGURA 1.7 - OS INÍCIOS DAS ESTAÇÕES DO ANO ATRAVÉS DAS PERSPECTIVAS
HELIOCÊNTRICA E GEOCÊNTRICA (A ILUSTRAÇÃO ESTÁ FORA DE ESCALA).
Seqüencialmente, para o hemisfério sul da Terra, tem-se: o Equinócio de Outono em 20
ou 21 de março, o Solstício de Inverno entre 21 e 23 de junho, o Equinócio de
Primavera em 22 ou 23 de setembro e o Solstício de Verão entre 21 e 23 de dezembro.
As estações do ano acontecem de forma inversa em cada um dos hemisférios terrestres.
Enquanto é Verão no hemisfério sul, é Inverno no hemisfério norte.
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A fim de complementar o entendimento, vamos pensar na observação do nascer e pôr
do Sol nos dias dos Equinócios e Solstícios, como está representado na Figura 1.8, para
um local na região tropical do hemisfério sul (entre o Equador e o Trópico de
Capricórnio). Somente nos Equinócios o Sol surge no Horizonte exatamente a partir do
Ponto Cardeal Leste, deslocando-se ao longo do dia sobre o Equador do céu e
escondendo-se, exatamente também, no Ponto Cardeal Oeste (isso ocorre para quase
toda a Terra; as exceções são os pólos geográficos). Os Solstícios são os dias quando o
Sol mais se distancia dos Pontos Cardeais Leste e Oeste, no nascer e ocaso,
respectivamente. No Solstício do Verão Austral, o Sol surge mais ao sul do Ponto Leste
e esconde-se, com o mesmo distanciamento, ao sul do Ponto Oeste. No Solstício do
Inverno Austral, o Sol nasce com o maior afastamento angular ao norte do Ponto Leste e
põe-se, com o mesmo distanciamento, ao norte do Ponto Oeste (veja a Figura 1.8). O
distanciamento angular máximo que a direção do Sol pode assumir em relação ao
Equador Celeste é exatamente igual à inclinação entre o plano da Eclíptica e o plano do
Equador (# 23q,5). O ângulo entre a direção do Sol e a do Ponto Cardeal Leste, medido
sobre o Círculo do Horizonte no momento do nascer do Sol em qualquer dia do ano
depende da latitude do lugar e da declinação do Sol, exceto nos Equinócios quando esse
ângulo é nulo.

FIGURA 1.8 - VISÃO TOPOCÊNTRICA PARA O NASCER DO SOL NOS SOLSTÍCIOS E
EQUINÓCIOS PARA UM LUGAR TROPICAL DO HEMISFÉRIO SUL DA TERRA.
Somente na região tropical, o Sol pode ficar a pino ao meio dia (solar). Entre os trópicos
isto acontece duas vezes por ano, como no caso da Figura 1.8, e os dias correspondentes
são determinados pela latitude do lugar. Para um local no Equador Terrestre, o Sol cruza
a pino o Meridiano Local nos dias dos Equinócios. Já para os locais situados exatamente
sobre um dos trópicos, o Sol cruza a pino somente uma vez, no Solstício de Verão. Os
Trópicos de Capricórnio e Câncer são nomeados desta maneira porque durante os
Solstícios, na Antigüidade, o Sol se encontrava na direção dessas constelações
zodiacais.
INCLINAÇÃO DO EIXO DE ROTAÇÃO DA TERRA
O ângulo formado entre o eixo de rotação da Terra e a perpendicular da Eclíptica é,
exatamente, igual à separação angular entre o plano do Equador da Terra e o plano da
órbita terrestre (Eclíptica). A Figura 1.7 ilustra essa inclinação do eixo de rotação da
Terra.
Na época atual, a inclinação entre o plano do Equador e o da Eclíptica é de
aproximadamente 23q,5 (precisamente 23q 26’ 21’’ no ano 2000.0). Se, por acaso, a
inclinação fosse 0q, ou seja, a Terra girasse com o seu eixo perpendicularmente ao plano
da Eclíptica, todos os “dias claros” e noites teriam sempre a mesma duração (12 h);
seria um eterno Equinócio (os planos da Eclíptica e do Equador coincidiriam) e não
existiriam as estações do ano.
A inclinação do eixo da Terra muda com o tempo, porque esta se movimenta
semelhante a um pião que gira obliquamente ao chão. Um dos movimentos,
denominado precessão dos Equinócios, faz o eixo da Terra girar em torno da
perpendicular da Eclíptica com um período de cerca de 25.800 anos. Outro movimento,
chamado nutação, faz o ângulo dessa inclinação oscilar em torno de um valor médio.
Ambos os movimentos são determinados pela interação gravitacional da Lua, Sol e
planetas sobre a Terra, em função desta não ser uma esfera perfeita. O movimento de
precessão produziria uma modificação lenta e gradual nas datas dos Solstícios e
Equinócios, antecipando-as, caso a correção correspondente não fosse aplicada ao
Sistema de Coordenadas Celestes Equatoriais. Com relação às observações
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astronômicas, esses movimentos alteram lentamente as coordenadas equatoriais dos
astros, em virtude de modificarem a direção dos pólos celestes. Hiparco, antigo
astrônomo grego (200 a.C.), já havia notado os efeitos da precessão dos Equinócios, ao
comparar as suas medidas de posição de estrelas com outras feitas tempos atrás. Para a
Astrologia, esses movimentos não são levados em conta, provocando inclusive uma
separação gradual entre a posição dos signos e suas respectivas constelações originais.
Por exemplo, o autor deste capítulo, que nasceu num certo dia do mês de maio, é do
signo de Gêmeos segundo a Astrologia, mas o Sol nessa data está na direção da
constelação de Touro.
GEOCENTRISMO, HELIOCENTRISMO E TRANSLAÇÃO
Do ponto de vista terrestre (visão geocêntrica), o Sol parece completar uma volta em
torno da Terra em um ano. O mesmo ocorre com a Lua e os planetas, só que em
períodos distintos. Todos esses astros possuem movimentos anuais aparentes com
trajetórias próximas à trajetória do Sol, no mesmo sentido do movimento solar (de oeste
para leste). Daí a origem do modelo geocêntrico, que tentou explicar os movimentos
desses astros errantes por entre as constelações zodiacais; todos deslocando-se em torno
da Terra imóvel. O geocentrismo perdurou até surgir o heliocentrismo, que explicava de
forma mais simples alguns movimentos “estranhos” que os planetas realizavam no céu.
Esses movimentos peculiares dos planetas faziam os mesmos retrocederem na sua
trajetória padrão oeste-leste, alguns deles traçando até mesmo pequenas trajetórias em
forma de laços. Além do mais, o heliocentrismo de Copérnico foi sustentado pela Teoria
da Gravitação Universal elaborada por Newton (leia mais no Capítulo 3).
O modelo heliocêntrico associado à Gravitação Universal explicou como a Terra e os
demais planetas orbitam em torno do Sol. Esse movimento é denominado translação (ao
redor do Sol). O movimento de translação da Terra acontece num plano, aquele da
Eclíptica. A órbita da Terra não é um círculo perfeito, mas sim uma elipse pouco
excêntrica (quase circular). Em primeira aproximação, o Sol ocupa um dos focos da
elipse, como representado na Figura 1.9. Na verdade, a Terra translada em torno do
centro de massa do Sistema Solar (leia o Capítulo 3 e a caixa de texto O QUE É CENTRO
DE MASSA? da seção seguinte). A translação da Terra pode ser chamada de movimento
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orbital. A velocidade média de translação é de cerca de 107.000 km/h (ou 30 km/s).
Definitivamente, nós não estamos imóveis no Universo.
O movimento de translação da Terra ocorre no mesmo sentido da sua rotação (de oeste
para leste). Aplica-se a regra da mão direita a fim de visualizá-lo.
A velocidade da translação terrestre foi obtida por medida direta astronômica em 1729
com os trabalhos do físico inglês James Bradley, o qual visava medir distâncias de
estrelas. Bradley observou algo inesperado: a direção das estrelas sofria um desvio
sistemático e cíclico. A razão é dada pela combinação da velocidade orbital da Terra
com a da luz (|300.000 km/s), nomeada de aberração da luz.
Alguém poderia afirmar que as estações do ano decorrem da variação da distância
Terra-Sol, contudo esta pessoa deve lembrar que as estações ocorrem alternadamente
em ambos os hemisférios terrestres. Mesmo que a variação na distância acarrete
pequenas alterações no fluxo de luz solar recebido pela Terra, 6,5% no máximo, não há
conseqüências maiores para as estações do ano. Quando é Verão no hemisfério sul, a
Terra encontra-se mais próxima do Sol do que quando é Verão no hemisfério norte
(Figura 1.9), mas nem por isso o Verão é mais intenso no hemisfério sul.
O intervalo de tempo que a Terra leva para transladar completamente em torno do Sol
depende do referencial assumido. No caso do ano solar, a referência é o próprio Sol. Já
o ano sideral é o intervalo de tempo entre duas passagens consecutivas da Terra pelo
mesmo ponto de sua órbita, dado em referência às estrelas. Enquanto o ano solar tem
365,2422 dias (solares), o ano sideral tem 365,25636; ou seja, o ano sideral é mais
longo em cerca de 20 min devido à precessão retrógrada do eixo de rotação da Terra que
faz o Ponto Gama se deslocar no Equador Celeste no sentido de encontro ao Sol
(quando este perfaz o seu movimento aparente anual de oeste para leste ao longo da
Eclíptica). Você poderia perguntar agora: - Por que não se adota o ano sideral no
calendário? Simplesmente porque os inícios das estações do ano são determinados pelo
ano solar e não pelo sideral. Se usássemos o ano sideral, a cada 72 anos as estações do
ano começariam um dia mais cedo, pois estaríamos acrescentado um dia (20 min/ano x
72 anos = 24 h). Com o passar dos anos, a diferença entre o início real de uma estação e
o seu início no calendário aumentaria, chegando a 1 mês após 2.160 anos.
O semi-eixo maior da órbita elíptica da Terra ao redor Sol é de 149.597.870 km, sendo
denominada de unidade astronômica (UA). Veja a definição de elipse no Capítulo 3. A
distância Terra-Sol varia de um valor mínimo, em torno de 147 milhões de quilômetros,
a um máximo por volta de 152 milhões de quilômetros.
FIGURA 1.9 - A TRANSLAÇÃO DA TERRA (VISTA DO NORTE DA ECLÍPTICA), COM OS
INÍCIOS DAS ESTAÇÕES DO HEMISFÉRIO SUL ASSINALADOS (ILUSTRAÇÃO FORA DE
ESCALA).
ASPECTOS DO CÉU EM DIFERENTES ESTAÇÕES
A partir da visão da Terra, o Sol parece atravessar as constelações zodiacais
anualmente, como se pode entender através da Figura 1.10. Quando o Sol se dispõe na
direção de uma determinada constelação do Zodíaco, esta e várias outras ao norte e ao
sul não podem ser visualizadas. Grande parte de uma faixa de quase 18 graus da esfera
celeste (em ascenção reta centrada no Sol) não é visualizada devido ao ofuscamento
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pelo Sol. Imagine que o céu fosse um gigantesco balão esférico de São João (sem boca)
de tal modo que os pólos celestes fossem os dois pontos de encontro de todos os 20
gomos de largura de 18q cada. O Sol estaria no centro deste balão e a Terra (com
rotação diária) transladaria dentro do balão ao redor do Sol central (como na Figura
1.10). A faixa de ascensão reta ofuscada pelo Sol corresponderia ao gomo do balão que
estivesse na direção do Sol. Consequentemente, todos os demais “gomos” do céu
poderiam ser observados ao longo da noite. O “gomo” celeste diametralmente oposto
àquele ofuscado pelo Sol seria avistado preferencialmente à meia-noite. Vale lembrar
que a extensão (norte-sul) visível de cada “gomo” celeste avistado seria dependente da
posição em latitude do observador na Terra (veja ASPECTOS DO CÉU EM DIFERENTES
LATITUDES, na seção DIAS E NOITES). Para as regiões equatoriais, poderíamos observar
praticamente toda extensão de cada “gomo”. A partir do hemisfério sul da Terra,
observaríamos preferencialmente a extensão sul dos “gomos”.

FIGURA 1.10 - MOVIMENTO APARENTE ANUAL DO SOL POR ENTRE AS
CONSTELAÇÕES ZODIACIAS DEVIDO À TRANSLAÇÃO DA TERRA (ILUSTRAÇÃO FORA
DE ESCALA).
A fim de ilustrar melhor, pensemos no caso do Brasil, mais especificamente na latitude
de São José dos Campos. Nessa situação, o pólo celeste elevado é o Sul. Vamos fixar
um determinado horário, 21h (tempo civil), para a observação do aspecto do céu
noturno.
Na Tabela 1.1 são apresentadas as constelações mais fáceis de serem identificadas
quanto à localização das mesmas na esfera celeste para o meio de cada estação. As
constelações do Zodíaco são listadas conforme suas disposições de leste para oeste no
céu. A(s) estrela(s) mais brilhante(s) destas constelações, facilmente observada(s) a olho
nu, é(são) apresentada(s) entre parênteses para algumas delas.
As constelações zodiacais representam, em sua maioria, contornos de animais; vem daí
essa nomenclatura de origem grega (do grego zodiakós; zoo: animais e kyklos: círculo).
Originalmente, foram concebidas pelos povos sumerianos, Antiga Mesopotâmia, e
adaptadas pela antiga cultura grega. Classicamente, as constelações do Zodíaco são em
número de doze. Contudo, existe mais uma que se situa na direção da Eclíptica: é a
constelação do Ofiúco ou Serpentário, a qual foi concebida na mesma época das demais.
As Figuras 1.11 a 1.14 mostram as configurações projetadas do céu, no plano do
Horizonte, para esse local às 21h nessas datas. Para utilizar essas cartas celestes
sazonais com o intuito de reconhecimento do céu noturno, você deve segurá-las acima
de sua cabeça fazendo coincidir as direções N-S e L-O com a orientação geográfica
local (é preferível ficar de frente para o Sul).
BANDEIRA NACIONAL
A bandeira da República Federativa do Brasil possui um
círculo azul estrelado. As estrelas representam os 26
estados brasileiros e o Distrito Federal, estando dispostas
numa configuração espelhada para o céu do Rio de
Janeiro, no momento da proclamação da República
(8h30min, 15/11/1889). Em especial, podemos visualizar a constelação do Cruzeiro do Sul
(invertida da esquerda para direita), como hipoteticamente seria vista de fora da esfera celeste.
Quatro estados da Região Norte não estão representados nesse modelo oficial da bandeira.
CONSTELAÇÕES VISÍVEIS POR ESTAÇÃO DO ANO PARA O HEMISFÉRIO
SUL.
FIGURA 1.11 - PROJEÇÃO DO CÉU PARA SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, ÀS 21H, PARA O
MEIO DO VERÃO.
FIGURA 1.12 - PROJEÇÃO DO CÉU PARA SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, ÀS 21H, PARA
O MEIO DO OUTONO.
FIGURA 1.13 - PROJEÇÃO DO CÉU PARA SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, ÀS 21H, PARA O
MEIO DO INVERNO.
FIGURA 1.14 - PROJEÇÃO DO CÉU PARA SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, ÀS 21H, PARA O MEIO
DA PRIMAVERA.
FASES DA LUA
A Lua é o único satélite natural da Terra. Foi denominada, na antigüidade, de Luna,
antiga cidade de Tucana (Itália) pelos romanos e Selene, irmã de Hélio e filha de
Hipérion e Téia pelos gregos. É o astro mais brilhante do céu noturno.
As fases da Lua correspondem aos diferentes aspectos com que esta se apresenta no céu
ao longo das noites e dos “dias claros” de um mês. Isso não é devido à projeção da
sombra da Terra na Lua, como alguns podem pensar. Mas sim, devido à visualização
que temos da Lua conforme ela orbita em torno da Terra (posição relativa entre a Lua,
Terra e Sol). A fase da Lua é um fenômeno astronômico de observação simultânea para
todo o globo terrestre (quando a Lua cheia é vista do Brasil, ela é também vista como tal
em Portugal).
Com certa regularidade, a Lua ora atravessa a sombra da Terra (eclipse da Lua), ora
projeta sua sombra na superfície terrestre (eclipse do Sol).

FIGURA 1.15 - A LUA EM FASES DISTINTAS (FOTOS DE ANDRÉ MILONE, NO
OBSERVATÓRIO DO VALONGO/UFRJ, RIO DE JANEIRO, 1988).
ASTROS LUMINOSOS E ILUMINADOS
O Sol, assim como as outras estrelas, é um astro que produz e emite radiação
eletromagnética em vários comprimentos de onda (ler os Capítulos 2 a 5); ou seja, as
estrelas são fontes de ondas de rádio, microondas, infravermelho, luz visível,
ultravioleta, raios X e raios gama, em ordem crescente de energia luminosa. A Lua, os
planetas (incluindo a Terra) e os corpos menores do Sistema Solar são astros iluminados
pelo Sol. Portanto, a Lua e os planetas são visualizados por nós simplesmente porque
refletem a luz visível solar incidente. A superfície da Lua reflete cerca de 7% da luz
solar incidente.
TRANSLAÇÃO DA LUA
O intervalo de tempo que a Lua gasta para completar uma volta completa em torno do
centro de massa do sistema Terra-Lua, em relação ao referencial das estrelas, é chamado
de período sideral; é igual a 27 dias, 7 horas, 43 minutos e 12 segundos (solares). Já o
intervalo de tempo entre duas fases iguais sucessivas (ex. duas fases cheias) é
denominado período sinódico ou, simplesmente, lunação; relativo ao referencial solar (o
qual consequentemente definirá a duração do Dia Solar da Lua). Uma lunação dura 29
dias, 12 h, 44 min e 3 s (solares), cerca de 29 dias e meio, maior que o período sideral!
É a base dos calendários lunares. Veja também a seção ANO SOLAR E LUNAÇÃO.
O movimento orbital da Lua (ao redor da Terra, em primeira aproximação) é realizado
no mesmo sentido dos movimentos orbital e rotacional da Terra, ou seja, ocorre de oeste
para leste. É fácil perceber isso: a Lua sempre “nasce” cerca de 50 minutos mais tarde,
dia após dia, em conseqüência de seu movimento de oeste para leste. Aplicando-se
novamente a regra da mão direita com o polegar para cima apontando para o norte, temse que a Lua translada ao redor da Terra no mesmo sentido que a Terra translada ao
redor do Sol. A Figura 1.16 ilustra o movimento de translação da Lua.
A órbita da Lua não é circular mas sim elíptica, de modo que num dos focos da elipse se
localiza o centro de massa do sistema Terra-Lua e não o centro da Terra como se
poderia pensar. A distância entre os centros da Lua e Terra varia de 357.300 km a
407.100 km. A velocidade média de translação da Lua fica em torno de 3.700 km/h.

FIGURA 1.16 - A TRANSLAÇÃO DA LUA: SUAS FASES PRINCIPAIS COMO SÃO VISTAS
DO HEMISFÉRIO SUL DA TERRA (ILUSTRAÇÃO FORA DE ESCALA).
Estudei todo o conteúdo, pessoal que almeja encarar ASTRONOMIA, está imperdível esse estudo complexo e de fácil entendimento . Agradeço desde já e bons estudos.
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